O pessoal adora um bom drama. Muita choradeira, muita auto-comiseração, muitas noites de insónia, muito "ai que eu estou a sofrer", muita chamada de atenção, enfim, muito drama. Se não fazes dramas, não és levado a sério. Se dormes bem todas as noites, és um alienado, um insensível, alguém que não quer saber de nada. E o pessoal gosta é de partilhar dores, desgostos, dúvidas, o pessoal gosta de achar que pode salvar alguém e que alguém o vai salvar no meio de tanta choradeira. Se não tens um drama para partilhar não fazes parte do clã, não entendes a dor dos outros, não sabes o que é isso. És um está-se bem, e os está-se bem estão sempre bem, não passa daquilo, não têm coisas sérias na vida, não sentem, não se chateiam.
E quando dizes que te recusas a fazer dramas, porque já não tens paciência para dramas, porque achas que a vida é muita curta e muita coisa acontece enquanto perdes tempo a consumir-te em dramas, acenam-te com a cabeça e dizem-te "sim, senhora", mas continuam a olhar-te como alguém que já não faz parte dos comuns mortais. Porque quem não chora, não grita, não cobra, é porque não sente, não faz parte do tal clã a ser salvo. Muitas vezes, falta perceber que não fazer drama não significa necessariamente não sentir com a mesma intensidade, pode significar apenas que se escolhe não ir por aí, pela chamada de atenção, pela entrega à auto-comiseração, pelo querer partilhar dores e entrar nesse jogo do "quem salva quem primeiro".
Há quem não esteja disposto a isso, há quem prefira ficar quieto no seu canto e saltar logo essa parte. Mas disso o pessoal não gosta, porque isso não emociona ninguém, não apela à sensibilidade, não dá luta. O pessoal gosta é de sangue, de discussão, de tristezas, do "ora queixas-te tu ora queixo-me eu", e depois carregar com os dramas uns dos outros e chorar todos juntos.
Se não te queixas, se não gritas, se não bates o pé, é porque não sentes. E se o pessoal acha que não sentes, nem questiona.
Se não te queixas, se não gritas, se não bates o pé, é porque não sentes. E se o pessoal acha que não sentes, nem questiona.