Na quarta-feira passada dei um daqueles trambolhões épicos. Não foi uma quedazinha, não foi uma escorregadela, não foi um torcer de pé ou um joelho levado ao chão como tantas vezes me acontece, graças à sempre maravilhosa combinação saltos altos/calçada portuguesa. Não, nada disso. Foi um verdadeiro mergulho olímpico. Os pés ficaram presos numa daquelas fitas de plástico duro que se usam para atar caixotes, e o corpo foi todo projectado para a frente, tal a velocidade do passo a que eu seguia. Só não dei cabo da cara toda porque, a meio do voo, consegui meter as mãos à frente. Sei que me ouvi a soltar um enorme “ai f**-se!” assim que bati no chão, e sei que em menos de 5 segundos estava em pé, a ajeitar a roupa.
Ouvi uma voz atrás de mim a perguntar-me se estava bem, se precisava de ajuda. Era o rapazinho da oficina. Claro que eu não podia dar um trambolhão daqueles numa zona recatada, seria um desperdício. Teve mesmo de ser à porta de uma oficina cheia de gajos. E enquanto eu olhava para as minhas mãos a sangrar, o rapazinho voltou a perguntar-me se eu estava mesmo bem, que a queda tinha sido muito grande, e eu podia ter partido alguma coisa. Desatei-me a rir. Estava aflita das mãos, do joelho, do pé, e não sabia se de mais alguma coisa, mas mantive-me firme e hirta, e a rir da minha própria figura. Disse-lhe que não precisava de nada, que estava tudo bem, agradeci, e segui direitinha para o restaurante onde me esperavam. Pelo caminho, sentia as mãos a queimar, o joelho a doer, o pé a latejar, mas não conseguia parar de rir sozinha.
E durante aquele curto percurso, eu percebi que sou sempre assim em todas as minhas quedas. Por mais aparatosas que sejam, por mais que me esteja a doer por dentro, eu levanto-me em 5 segundos, digo que está tudo bem, e sigo o meu caminho a rir de mim mesma. Mais tarde, logo avalio os estragos e trato das feridas. Naquele momento, é levantar e andar.