Fechei a porta do prédio e caminhei apressadamente pela rua. Estava atrasada e ainda tinha de ir meter gasolina. Entrei no carro, meti-o a trabalhar, e quando me preparava para arrancar, um outro carro parou em frente ao meu, bloqueando-me a saída. Fiz sinais de luzes e meti a cabeça fora da janela, já a preparar-me para reclamar, quando vi uns quantos vultos saírem do dito carro em direcção ao meu. Assustada, fechei a janela e pousei a mão em cima da buzina, por precaução. E foi nesse momento que um desses vultos bateu no vidro e disse-me educadamente “calma, não tenhas medo, estamos aqui apenas para nos despedirmos de ti”. Fiquei intrigada e abri um pouco o vidro para saber do que se tratava. “Despedirem-se de mim? Mas quem são vocês?”
Foi então que o primeiro vulto, pedindo-me que abrisse um pouco mais a janela, começou a explicar:
“Eu sou a independência, não me reconheces? Eu trouxe-te uma casa nova, um espaço só teu, um cantinho onde és dona de ti e do teu tempo, onde só entra quem tu queres, onde te escondes quando queres estar sozinha e onde te encontras quando te sentes perdida."
O segundo aproximou-se com um ar sério:
“Eu sou a prudência, e mostrei-te o que de pior existe no ser humano. Mostrei-te até onde as pessoas vão por ambição e ganância. Mostrei-te o quanto podem ser injustas e cruéis. Fiz-te tropeçar em minas e armadilhas, mas ensinei-te a sobreviver a todas elas. E no final, depois de saradas as feridas, aprendeste a ser uma pessoa muito mais prudente e cautelosa.”
O terceiro meteu-se à frente e continuou:
“Eu sou a amizade, e sei que nem sempre fui leal contigo. Coloquei pessoas erradas no teu caminho, mas ensinei-te a reconhece-las uma a uma, e dei-te a coragem para lhes virares as costas no momento certo. Por outro lado, compensei-te com algumas boas surpresas, e hoje sabes com quem podes contar.”
O quarto olhou-me nos olhos e disse baixinho:
“Eu sou a família, aquela sem a qual não serias ninguém, sou o teu porto de abrigo, a tua referência, e fiz-te perceber isso mais do que nunca.”
O quinto piscou-me o olho e sorriu:
“Eu sou a paixão, e dei-te as histórias mais ardentes que já viveste em toda a tua vida. Apresentei-te pessoas especiais e deixei-te desfrutar do melhor de cada uma delas. Dei-te momentos loucos que nunca vais esquecer. O resto, fica só entre nós.”
O sexto surgiu com um ar grave e penoso:
“Eu sou o trabalho, e tenho sido a tua cruz, a razão de todas as tuas dores de cabeça, a causa de todas as tuas irritações. Sei que sou eu que te tiro o sono e te faço ir abaixo, de vez e quando. Espero que consigas ultrapassar-me rapidamente.“
O sétimo chegou calmamente:
“Eu sou a ponderação, e ensinei-te a teres calma, a seres mais racional, a estabeleceres regras para a tua vida. Ensinei-te a não cederes a impulsos inconsequentes e a fazeres valer os teus princípios, mesmo que enfrentando, muitas vezes, a incompreensão dos outros. Ensinei-te a respeitar radares e a fazer uso do travão nos teus dias.”
O oitavo suspirou alegremente:
“Eu sou o reencontro, e dei-te a oportunidade de voltares a estar com pessoas que já não vias há muitos anos. Fiz-te recuar no tempo e recordar momentos especiais, amizades, velhas paixões até. Fiz-te reencontrar um pouco de ti mesma em cada uma dessas pessoas e mostrei-te o tamanho que cada uma delas tem na tua história”.
O nono veio sentar-se ao meu lado e, com um olhar confiante, disse:
“Sabes, eu sou a mudança, e andei sempre atrás de ti sem que desses por isso. Esperei que os outros vultos cumprissem as suas funções para que pudesses, finalmente, descobrir-me por ti mesma. E sei que o fizeste. Por isso, agora despedimo-nos de ti e passamos o testemunho a novos vultos que irão, com certeza, continuar a trazer-te muitas surpresas pela vida fora.”
Nisto, o décimo vulto interrompe, efusivamente:
“Hey pessoal, falto eu! Deixem-se lá de conversas da treta! Eu sou a melhor parte disto tudo! Eu sou a diversão, a farra, as noites bem passadas até nascer o dia, as gargalhadas, os momentos loucos sem juízo, e foi graças a mim que tiveste os melhores anos da tua vida!”
E dito isto, os 10 vultos entraram no carro, acenaram e foram embora. E eu sorri. Reconheci cada um deles. Eram os meus intas que partiam.