Quando, há cerca de três anos, a empresa onde eu trabalho mudou de instalações, eu achei que ia dar em doida com o barulho dos aviões a passarem ali baixinho, o dia todo. Sentia os vidros a estremecer, mal conseguia ouvir os meus colegas, e até eu me calava por uns segundos cada vez que algum passava, já que nem a mim me conseguia ouvir em condições. Aquilo era um inferno, e eu só me perguntava como é que as pessoas que moram naquela zona conseguiam ter noites descansadas.
Hoje já nem os oiço. Quase que poderia jurar que o aeroporto se mudou para bem longe, ou que os ditos deixaram de passar por ali. Mas não, eles continuam a passar, e continuam a fazer o mesmo barulho infernal. Não foram eles que mudaram, fui eu que me habituei.
E se, em relação aos aviõezinhos, isto me parece uma vantagem, o mesmo já não sei se poderei dizer em relação a tantas outras coisas que deixam de nos incomodar. É que, parecendo que não, cria-se a ilusão de que esses barulhos infernais deixaram de existir, acabaram, livrámo-nos deles. Mas, na verdade, eles continuam a fazer os vidros estremecer, e continuam a dar cabo dos nossos ouvidos, só que de uma forma muito mais perigosa: sem darmos por eles.