terça-feira, 25 de outubro de 2011

O meu jogging matinal

Até gostava de ser uma daquelas pessoas que acorda sempre à hora prevista, e tem tempo para escolher cuidadosamente a roupinha que vai vestir, e passa uma boa meia hora em frente ao espelho até deixar o cabelo impecavelmente penteado, e ainda toma o pequeno-almoço enquanto espreita as primeiras notícias do dia. E depois sai para o trabalho sem pressas, e vai cantarolando no carro enquanto está parada no transito, e ainda tem tempo para parar no multibanco, e finalmente sentar-se calmamente a apreciar o primeiro café da manha, assim que chega ao seu destino.

Mas não.

Acordo sempre para lá da hora ideal. Salto da cama apressada, tropeço nos chinelos, bato com o dedo do pé na quina do móvel e solto o primeiro palavrão do dia. Engulo um iogurte líquido enquanto a água do banho aquece. Tomo um duche e visto-me a correr, passo a escova no cabelo e dou-lhe 2 minutos de secador só para não dizer que vai a pingar. Olho para as horas. Tenho menos de 5 minutos para sair de casa e digo o segundo palavrão do dia. Faço a cama, agarro na mala e preparo-me para sair. Volto atrás porque me esqueci do telemóvel a carregar na sala. Volto a sair de casa. Volto novamente atrás porque me esqueci de fechar o gás. Saio de casa e começo a descer a rua. Não vejo o carro. Fico a pensar onde o deixei no dia anterior e lá me lembro que está do outro lado do jardim. Entro no carro, olho para as horas e digo o terceiro palavrão do dia. Arranco apressada e refilo com todos os condutores que vão a pastar à minha frente. Chamo-lhes nomes entre dentes. Estaciono o carro no primeiro buraco que encontro e saio a correr. Volto atrás porque me esqueci de o fechar. Olho para as horas e faltam 5 minutos. Engulo um café quente à pressa no café mais próximo, queimo a língua e digo o quarto palavrão do dia. Enfio um bolo e um sumo na mala para mais tarde. Finalmente chego à empresa e sento-me, estafada. Abro a mala para tirar o telemóvel e não o encontro. Ficou caído no carro. E digo mais um palavrão enquanto ligo o computador e reparo que a senhora do café me embrulhou o bolo errado.

domingo, 16 de outubro de 2011

A minha não é igual à tua

Difícil não é metermo-nos no lugar dos outros. Todos nós temos a capacidade de nos imaginarmos em determinado cenário e dizer o que faríamos. O difícil mesmo é metermo-nos no lugar dos outros com a cabeça dos outros. Porque o que facilmente fazemos é julgar situações à nossa imagem. Se eu não sou feliz assim, então os outros não poderão ser. Não, tem de haver ali qualquer problema, algo não bate certo. E se isto me faz tão feliz, como é que alguém pode não querer o mesmo? Não acredito, algo também não bate certo. E fazemos filmes, construímos cenários e tentamos decifrar aquilo que julgamos ser um grande quebra cabeças montado para nos enganar. Metemo-nos no lugar dos outros sim, mas com a nossa cabeça no papel principal, e esquecemo-nos de que, muitas vezes, a chave para aquilo que julgamos ser um grande mistério, é apenas perceber e aceitar que a cabeça dos outros nem sempre é igual à nossa.