“Porque nunca tive a intenção de ficar por aqui muito tempo”
Na verdade, já lá vão 9 anos que estou nesta casa, mas a ideia de que seria uma coisa temporária persistiu ao longo do tempo. Meter uns simples cortinados nas janelas não iria dar trabalho nenhum mas, estranhamente, iria transmitir-me a ideia de que assentei arraiais. Olhar para estas janelas nuas dá-me uma sensação inexplicável de liberdade, de desapego, como se a qualquer momento pudesse fazer a trouxa e zarpar, mesmo que acabe por nunca faze-lo.
Depois lembrei-me que sempre tive uma enorme aversão a tatuagens. Não que não goste de as ver nos outros. Até gosto de muitas. E até cheguei a pensar várias vezes naquela que escolheria para fazer em mim. Mas imaginar-me com algo cravado na pele eternamente é coisa que me tira o sossego. Claro que existem técnicas para remove-las, mas não se faz uma tatuagem a pensar que, mais dia menos dia, se vai querer ver livre dela.
E da mesma forma que gosto de ver a minha pele limpa de qualquer desenho permanente, também gosto de ver a decoração da minha casa como que inacabada. Na verdade, nada na vida é para sempre, mas por vezes há coisas que supostamente se assumem como tal. E é esse carácter definitivo das coisas que me sufoca, essa ideia de que estou ali para assentar arraiais. No fundo, até posso ir ficando, mas preciso de ter a sensação de que estou de passagem.