quinta-feira, 25 de novembro de 2010

De Passagem

Hoje perguntaram-me por que razão nunca coloquei cortinados em minha casa. A resposta foi automática:

“Porque nunca tive a intenção de ficar por aqui muito tempo” 

Na verdade, já lá vão 9 anos que estou nesta casa, mas a ideia de que seria uma coisa temporária persistiu ao longo do tempo. Meter uns simples cortinados nas janelas não iria dar trabalho nenhum mas, estranhamente, iria transmitir-me a ideia de que assentei arraiais. Olhar para estas janelas nuas dá-me uma sensação inexplicável de liberdade, de desapego, como se a qualquer momento pudesse fazer a trouxa e zarpar, mesmo que acabe por nunca faze-lo.
Depois lembrei-me que sempre tive uma enorme aversão a tatuagens. Não que não goste de as ver nos outros. Até gosto de muitas. E até cheguei a pensar várias vezes naquela que escolheria para fazer em mim. Mas imaginar-me com algo cravado na pele eternamente é coisa que me tira o sossego. Claro que existem técnicas para remove-las, mas não se faz uma tatuagem a pensar que, mais dia menos dia, se vai querer ver livre dela.
E da mesma forma que gosto de ver a minha pele limpa de qualquer  desenho permanente, também gosto de ver a decoração da minha casa como que inacabada. Na verdade, nada na vida é para sempre, mas por vezes há coisas que supostamente se assumem como tal. E é esse carácter definitivo das coisas que me sufoca, essa ideia de que estou ali para assentar arraiais. No fundo, até posso ir ficando, mas preciso de ter a sensação de que estou de passagem.  
 

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Lugar Seguro

Por vezes, acomodamo-nos naquele lugar seguro. Conhecemos cada canto da casa e sabemos que janelas abrir ou manter fechadas. Conseguimos caminhar às escuras sem tropeçar num tapete ou bater nalguma parede. Estamos confortáveis, nada nos perturba. Ali sabemos quem somos e o que nos espera. Sabemos que temos uma porta que nos separa do que queremos deixar lá fora.
Sair desse lugar seguro deixa-nos frágeis. Faz-nos ter de pensar nos perigos que corremos. Deixamos de ter portas que nos protegem. Deixamos de poder caminhar à escuras porque não conhecemos o chão que pisamos. Nem sequer existe o vidro da janela por onde podemos espreitar sem termos de nos expor ao frio e à chuva. Sabemos que a nossa resistência será posta à prova. E não sabemos se, um dia, esse lugar assustador poderá ser um lugar tão confortável e seguro quanto aquele onde nos fechámos. E então ficamos ali, no hall de entrada, de chaves na mão, a tentar perceber se é melhor continuarmos no conforto do nosso canto ou se devemos reaprender a caminhar à chuva.