terça-feira, 23 de junho de 2009

Viagem


"Sawyer - So why'd you turn us around, then? Don't you wanna go back there?

Locke - Why would I wanna do that?

Sawyer - So you could tell yourself to do things different... save yourself a world of pain.

Locke - No, I needed that pain... to get to where I am now. "


Quem é que nunca pensou como seria se pudéssemos viajar no tempo? Quem é nunca pensou o que faria ou até onde gostaria de ir? Ao passado? Ao futuro? Ambos?

Há quem diga que não mudaria nada no seu passado. E há quem diga que não iria querer conhecer o seu futuro. Mas é fácil falar quando se trata de uma possibilidade que não existe. Mas... e se existisse? Se realmente fosse possível fazê-lo? Se existisse uma máquina do tempo, na qual bastasse marcar uma data e carregar num botão, para sermos transportados para onde quiséssemos e sempre que nos apetecesse? Será que não tentaríamos mudar absolutamente nada do nosso passado? E conseguiríamos resistir à tentação de espreitar o nosso futuro?

Não sei se acredito muito.

Todos nós gostaríamos de poder mudar ou reparar alguma coisa. Ninguém tem uma vida ou um percurso perfeito, sem erros, sem enganos, sem maus momentos. Há sempre qualquer coisinha que gostaríamos de ter feito de outra forma, ou de não ter feito, ou até mesmo algo que ficou por fazer. Há sempre alguma coisa que nos leva a perguntar "e se...?".

O mesmo se passa com o nosso futuro. Cada vez que tomamos uma decisão, pensamos numa consequência. Cada vez que damos um passo, pretendemos que ele nos leve a algum lugar. Não sabemos se realmente lá vamos chegar, não sabemos se as consequências da nossa decisão vão ser aquelas que desejamos, mas temos de agir, de arriscar, de fazer alguma coisa.

Mas e se pudéssemos ir espreitar o nosso futuro? E se pudéssemos conhecer logo as consequências das nossas decisões? Conseguiríamos não fazê-lo? E conseguiríamos ficar impávidos perante um percurso completamente oposto ao que desejámos para nós? Não iríamos querer voltar novamente atrás e tomar a decisão contrária? E depois voltar novamente ao nosso futuro para, mais uma vez, ver se dava certo?

E no meio de tanta viagem, onde ficava exactamente o nosso Presente?

Agora imaginem que apenas teriam direito a uma viagem, que apenas poderiam mudar uma única coisa no vosso passado, conseguiriam escolher um único momento que tivesse sido decisivo para todo o vosso percurso? Saberiam exactamente a data que teriam de marcar na máquina do tempo? E saberiam exactamente o que fazer, nesse preciso momento, para que tudo ficasse como gostariam?

Eu não. Não saberia onde ir exactamente. Não saberia o que fazer com toda a certeza de que iria acertar. Poderia mudar mil e uma coisas, mas nada me garante que seriam as coisas certas.

Se viajaria no tempo, caso fosse possível?
Duvido que resistisse à tentação.

Mas ainda bem que não é possível, porque como disse John Locke:

"I needed that pain to get to where I am now"
(Lost - SO.5)


quinta-feira, 4 de junho de 2009

Rascunho



A vida é uma grande, grande treta...
Num dia estamos de pé, orgulhosos de termos sobrevivido às batalhas que travámos e convictos que de que temos todo o tempo do mundo para realizarmos os muitos desejos que ainda temos. Vamos deixando tudo para depois, para amanha, para o mês seguinte, para um qualquer dia.
"Com o tempo chego lá", "Amanha logo se vê", "Vou esperar mais um tempo", "Ainda é cedo" e etc, etc.
E de repente, esse amanha que era uma certeza, esse depois que dávamos como garantido, torna-se a nossa maior e mais dura batalha de sempre.
Hoje estamos cá, amanha não sabemos.
Passamos demasiado tempo a sofrer por porcariazinhas. Perdemos demasiadas horas de sono a pensar nas nossas idiotas crises existenciais, nos nossos dramas amorosos, na discussão que tivemos com o patrão, com o amigo, com o vizinho e o periquito. Sofremos e desgastamo-nos por coisas que nos parecem o fim do mundo. Mas quando nos deparamos com coisas realmente graves - nossas ou de alguém que nos é querido - sentimo-nos pequeninos e ridículos.
Hoje senti-me assim... muito pequenina e ridícula. Ridícula pelas vezes que achei que estava mal. Ridícula por tudo o que já lamentei. Ridícula pelo tempo que já perdi a pensar nas coisas em vez de as fazer ou dizer. Ridícula por achar que o amanha vai estar sempre lá para me dar respostas.
E é em dias como o de hoje, ao vermos o que é realmente uma coisa grave, ao percebermos que a nossa vida, de repente, pode estar por um fio, que temos vontade de sair a correr para fazermos as pazes com aquele amigo, vontade de aproveitar todos os momentos possíveis com aquele alguém especial, vontade de partir para o lugar que sonhamos conhecer, vontade de viver tudo o que queremos e podemos, e deixarmo-nos de idiotices e de dramas e de medos e de merdinhas que, perto daquilo com que alguém se depara, são coisas pequeninas, muito pequeninas.
A vida é uma treta e é injusta. Tem-no sido para pessoas que me são queridas. E hoje foi, mais uma vez.

"Não faças da tua vida um rascunho. Poderás não ter tempo de passa-la a limpo"
(Mário Quintana)